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História

RPG de mesa no Brasil | Da geração Xerox aos mestres profissionais de hoje

Conheça a história do RPG de mesa no Brasil, da geração Xerox aos sistemas nacionais, grandes cenários, financiamento coletivo e mestres profissionais.

Triz & Tomos07 de set. de 20269 min de leitura
Colagem horizontal com oito capas de RPG brasileiros sobrepostas e inclinadas, preenchendo toda a imagem: Tagmar, Defensores de Tóquio, Tormenta RPG, Old Dragon, Ordem Paranormal RPG, Mighty Blade, A Bandeira do Elefante e da Arara e Skyfall RPG. As capas apresentam diferentes estilos de fantasia, aventura, horror e ficção, reunidas sobre uma composição de estética brasileira com mapas, folhas, dados e elementos rústicos ao fundo, destacando a diversidade e a história do RPG nacional.
Neste artigo

Hoje, quando você se senta para jogar RPG, encontra uma variedade enorme de opções. Temos livros nacionais bem traduzidos, RPGs brasileiros premiados, campanhas transmitidas online e até pessoas que fazem disso sua profissão. Nada disso existia há 40 anos. O RPG de mesa não apareceu de repente no Brasil. Ele foi construído aos poucos, com fotocópias, importações caras, um desenho animado na Globo e um grupo determinado que resolveu criar seu próprio jogo.

Realmente, antes era tudo mato, e devemos muito a esses primeiros RPGistas!

A geração xerox (anos 1980)

No início dos anos 80, RPG não era algo que você comprava em uma loja no Brasil, era algo que você precisava conseguir. Sem lançamento oficial por aqui, quem queria jogar Dungeons & Dragons dependia de um parente ou amigo que trouxesse um livro dos Estados Unidos. Esses livros raros viravam verdadeiros tesouros do grupo: passavam de mão em mão, eram totalmente fotocopiados e distribuídos entre os poucos jogadores. Esse costume acabou dando nome a toda uma geração de pioneiros do hobby no país: a "geração xerox".

Em 1986, algo inesperado ajudou a tornar o RPG mais conhecido pelo grande público: a Rede Globo começou a exibir Caverna do Dragão, o desenho animado baseado em Dungeons & Dragons. Muita criança aprendeu a palavra "masmorra" antes mesmo de rolar um dado, sem imaginar que um dia poderia encontrar um mímico assustador em uma dessas masmorras.

No final da década, os livros começaram a aparecer em grandes livrarias de São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda eram importados e caros, mas já estavam ao alcance de quem tinha dinheiro e paciência. D&D dividia espaço nas prateleiras com Middle-Earth Role Playing (MERP) e Rolemaster. Em 1989, apareceu até uma versão em português de Dungeons & Dragons, publicada em Portugal, que circulou entre os brasileiros como um gostinho do que estava por vir.

Nasce o RPG brasileiro (1991–1999)

Se existe um ano importante para lembrar, é 1991. Foi quando a editora GSA lançou o Tagmar, o primeiro RPG totalmente criado por brasileiros, com um cenário próprio inspirado em Tolkien. O diferencial do Tagmar ia além de ser nacional; ele também juntava regras, cenário, magias, criaturas e uma aventura pronta em um único livro. Lembrando que isso foi em uma época em que os RPGs importados exigiam vários volumes diferentes para jogar uma sessão.

No mesmo ano, a Devir trouxe oficialmente o GURPS para o Brasil, sendo o primeiro grande sistema de RPG estrangeiro traduzido e publicado profissionalmente em português. Se o Tagmar mostrou que era possível criar um RPG brasileiro, o GURPS mostrou que dava para traduzir um sistema internacional com qualidade. As duas novidades no mesmo ano abriram de vez o mercado nacional.

A partir desse momento, o RPG nacional começou a andar com as próprias pernas:

  • 1992 — a GSA publica "O Desafio dos Bandeirantes", ambientando aventuras de RPG no folclore brasileiro pela primeira vez.
  • 1995 — a Abril Jovem conseguiu a licença para publicar Advanced Dungeons & Dragons em português, começando pela versão simplificada First Quest. No mesmo ano, Marcelo Cassaro, Marlon Teske e Gustavo Brauner lançaram Defensores de Tóquio (3D&T), que virou um dos RPGs mais jogados e ensinados do Brasil. Muita gente aprendeu a mestrar com ele (se esse foi o seu caso, deixe um 🤯 no final do blog).
  • Ainda nos anos 90, a revista Dragão Brasil, criada por Cassaro, se tornou o principal ponto de encontro do hobby nacional, junto com publicações como Black Lotus e Dragão Dourado.
  • 1999 — surge Tormenta, primeiro como um encarte especial da Dragão Brasil. Seus criadores (Cassaro, Trevisan e Saladino) ficaram conhecidos como o "Trio Tormenta" e criaram um dos maiores cenários de fantasia brasileiros. Não foi o único cenário nacional importante da década, mas foi o que sobreviveu e cresceu: mais de vinte anos depois, Tormenta continua sendo reeditado, inclusive em versão compatível com a 5ª Edição de D&D, e é citado quase como sinônimo de "RPG brasileiro", até por quem não faz parte do hobby.
Em apenas dez anos, o Brasil passou de "fotocopiar livro americano escondido" para ter editoras, revistas próprias e cenários nacionais premiados.

Onde estamos agora

A cena que a geração xerox só podia imaginar hoje é realidade e continua mudando rápido, seguindo pelo menos dois caminhos diferentes.

De um lado, temos o movimento independente. Nos anos 2000 e 2010, longe das grandes editoras, criadores como Tiago Junges mostraram que era possível fazer RPG nacional sem precisar de um livro enorme ou de um selo editorial famoso. O Mighty Blade, por exemplo, é um sistema de fantasia medieval que usa apenas dados de seis faces e tem ficha pronta em cinco minutos, distribuído gratuitamente sob licença Creative Commons. Depois veio o Calisto, um sistema genérico de apenas quatro páginas, feito para caber no bolso ou no celular e resolver uma sessão inteira sem regras sobrando. Esses RPGs mostram que criar um sistema nacional não é só coisa de editora, é coisa de comunidade.

De outro lado, temos o fenômeno que mudou o significado de "sucesso de RPG brasileiro": Ordem Paranormal. Ele nasceu de uma campanha de RPG transmitida ao vivo pelo streamer Cellbit e virou livro publicado pela Jambô Editora, hoje a maior editora de RPG do Brasil. O projeto quebrou recordes de financiamento coletivo, impulsionado por uma legião de fãs que, em sua maioria, nunca tinham jogado RPG de mesa antes de conhecer o universo pela internet. O Tagmar mostrou que o RPG brasileiro podia existir, e Ordem Paranormal mostrou que o RPG brasileiro pode ser popular.

Enquanto Ordem Paranormal fazia sucesso por aqui, outro RPG nacional ganhava reconhecimento internacional. A Bandeira do Elefante e da Arara, criado pelo texano Christopher Kastensmidt, que mora no Brasil desde 2001, se passa no Brasil colonial, por volta de 1576, e nasceu de contos que ele começou a escrever em 2006, misturando folclore nacional com magias indígenas, africanas e cristãs. Publicado pela Devir em 2017 e depois em inglês pela Porcupine Press, o jogo ganhou um ENnie Award em 2019, o principal prêmio internacional de RPG de mesa, tornando-se o primeiro RPG feito no Brasil a vencer esse prêmio.

Também é importante lembrar que, desde os anos 2010, o financiamento coletivo se tornou um dos principais motores dos RPGs nacionais. Projetos que antes dependiam de grandes editoras agora nascem direto do público, abrindo espaço para cenários e sistemas cada vez mais diversos e autorais. Um exemplo recente é o Skyfall RPG, uma fantasia pós-apocalíptica criada pela CapyCat Games (Silvia Sala e Pedro Coimbra). Ele nasceu de campanhas de playtest, foi financiado coletivamente e hoje está entre os poucos sistemas brasileiros no top 150 mais jogados do mundo no Roll20. Isso mostra que o movimento iniciado com Tagmar e GURPS, lá em 1991, ainda traz novidades importantes. Esse mesmo impulso continua gerando candidatos fortes a "RPG nacional do ano".

E o hobby deixou de ser apenas diversão para parte da comunidade: mestrar se tornou uma profissão real para muita gente, com mesas pagas, narração como serviço e um público disposto a apoiar isso.

Também vale lembrar que o Brasil agora tem uma data especial no calendário do hobby: o Dia Nacional do RPG, comemorado em 24 de fevereiro, em homenagem ao aniversário de Gary Gygax, um dos criadores de Dungeons & Dragons. A data é celebrada por comunidades de RPG em vários países, incluindo o Brasil.

Por que isso importa

A história do RPG de mesa no Brasil é, no fim das contas, sobre uma comunidade que resolveu problemas que o mercado não resolveu. Não tinha jogo em português? O pessoal traduzia e fazia cópias. Não tinha cenário nacional? Criavam do zero e faziam sucesso. Não tinha espaço para mestrar como profissão? Algumas pessoas criaram esse espaço.

Na próxima vez que você sentar para jogar (presencialmente ou online) um sistema totalmente em português, em um cenário brasileiro, com um mestre que vive disso, lembre-se: isso não era o normal. É fruto de mais de quarenta anos de pessoas persistentes que insistiram em jogar, de qualquer forma.

Inclusive se quiser conhecer esses ou outros sistemas de RPG, te convido a entrar na página de projeto do Mestres da Masmorra, onde você encontra 10 mestres experientes e várias possbilidades de sistemas para se aventurar!


E para encerrar nossa conversa de hoje...

Bônus de inspiração para quem chegou até aqui:

Jogue um dado de 8 lados. O resultado mostra qual sistema brasileiro você deve conhecer este mês!

1 - Tagmar (1991, GSA) — o primeiro RPG genuinamente brasileiro, com ambientação de fantasia própria (inspirada em Tolkien) e a inovação de reunir regras, cenário, magias e uma aventura pronta em um único livro. Hoje, é mantido gratuitamente pela comunidade, por meio do Projeto Tagmar.

2 - Defensores de Tóquio / 3D&T (1994, criado por Marcelo Cassaro) — sistema simples e beginner-friendly que começou como sátira de tokusatsu e anime e virou genérico na 3ª edição. Ficou tão popular quanto D&D e Vampiro entre os jogadores brasileiros, com adaptações oficiais de Street Fighter e Mortal Kombat na revista Dragão Brasil.

3 - Tormenta (1999, Trio Tormenta) — o maior cenário de fantasia genuinamente brasileiro, nascido como encarte da Dragão Brasil. Segue sendo reeditado há mais de 20 anos e, hoje, inclusive, compatível com D&D 5ª Edição.

4 - Old Dragon (2010, Antonio Sá Neto, Rafael Beltrame e Fabiano Neme, pela Redbox) — um "retro-golem" inspirado nas edições clássicas de D&D, parte do movimento Old School Renaissance. Recebeu elogios internacionais pela fidelidade às regras antigas e pela qualidade das ilustrações, esgotou duas tiragens em dois anos e é considerado um dos RPGs brasileiros mais bem avaliados no exterior.

5 - Ordem Paranormal (2021, criado por Cellbit e publicado pela Jambô Editora) — um cenário de horror e conspiração, nascido de uma campanha em live. Quebrou recordes de financiamento coletivo no Brasil e hoje é o maior fenômeno comercial do RPG nacional, impulsionado por um público que conheceu o universo pela internet antes de jogar de mesa.

6 - Mighty Blade (Tiago Junges, versão 2 em 2009) — sistema indie de fantasia medieval, só com dados de seis faces, ficha pronta em cinco minutos, distribuído gratuitamente sob licença Creative Commons. Referência do movimento de RPG independente brasileiro.

7 - A Bandeira do Elefante e da Arara (2017, Christopher Kastensmidt/Devir) — ambientado no Brasil colonial; primeiro RPG brasileiro a ganhar um ENnie Award (2019).

8 - Skyfall RPG (CapyCat Games, Silvia Sala e Pedro Coimbra) — fantasia pós-apocalíptica ambientada em Opath, com o "Sistema S2" focado em narrativa; um dos poucos sistemas brasileiros entre os 150 mais jogados do mundo no Roll20 e um dos maiores casos de crescimento recente por meio de financiamento coletivo.

🎲 E não, não vale rolar de novo.

Te vejo no próximo post!

Perguntas frequentes

Qual foi o primeiro RPG brasileiro?

Tagmar, o primeiro RPG totalmente criado por brasileiros, com um cenário próprio inspirado em Tolkien.

Qual é o RPG de mesa mais jogado no Brasil?

Tormenta (1999) é o cenário de fantasia nacional mais duradouro e um dos poucos sistemas brasileiros entre os mais jogados do mundo no Roll20. Já Ordem Paranormal, criado pelo streamer Cellbit, é o maior fenômeno comercial recente do RPG brasileiro.

Quem criou o Ordem Paranormal?

"Ele nasceu de uma campanha de RPG transmitida ao vivo pelo streamer Cellbit e virou livro publicado pela Jambô Editora, hoje a maior editora de RPG do Brasil.

Quando é o Dia Nacional do RPG?

O Brasil agora tem uma data especial no calendário do hobby: o Dia Nacional do RPG, comemorado em 24 de fevereiro, em homenagem ao aniversário de Gary Gygax, um dos criadores de Dungeons & Dragons.

O que foi a "geração xerox"?

"geração xerox" foi o apelido que ficou para os primeiros jogadores de RPG do Brasil, lá no início dos anos 1980, numa época em que não existia nenhum lançamento oficial do jogo por aqui.

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Triz & Tomos

Sobre o autor

Triz & Tomos

Triz é mestra de RPG comissionada e cria mesas onde as escolhas têm peso e os NPCs deixam saudade. Pra ela, uma boa campanha é aquela que você vive esquecendo que é um jogo.

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