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Carta aberta a Howard Phillips Lovecraft

Guardiã Thaís20 de ago. de 20265 min de leitura
Guardião Thaís e Lovecraft
Neste artigo

Caro Howard,

Hoje, 20 de agosto, seria seu aniversário, e é estranho escrever para alguém que morreu muito antes de eu nascer. Mais estranho ainda é perceber que, de alguma maneira, ao longo desses anos, construímos uma amizade.

Você não sabe disso, ou talvez saiba de algum modo que eu jamais conseguiria compreender. Considerando tudo aquilo sobre o qual escreveu, prefiro não descartar nenhuma possibilidade.

Eu não o conheci pelos livros. Conheci você através de uma mesa de RPG, quando me convidaram para jogar Chamado de Cthulhu. Naquela época, eu ainda não fazia ideia de onde aquele convite me levaria.

Primeiro conheci os monstros, depois os contos e, por fim, os lugares. Arkham, Innsmouth, Kingsport, Dunwich, a Universidade Miskatonic, o mar, as casas antigas e os homens que descobriam coisas que jamais deveriam ter descoberto.

Depois de tudo isso, comecei a procurar você.

Foi quando percebi que talvez o maior mistério escondido em sua obra não estivesse no fundo do Pacífico, nas ruínas de uma cidade impossível ou nas páginas de algum livro proibido. Talvez aquele mistério estivesse em Providence e, principalmente, dentro de você.

Passei a enxergar seus contos de outra maneira. Comecei a encontrar neles suas ansiedades, suas obsessões, seus medos, seus preconceitos, suas perdas, seu isolamento e aquela sensação constante de não pertencer completamente ao mundo em que vivia.

Quanto mais eu conhecia sua obra, mais eu procurava conhecer o homem por trás dela. Encontrei suas contradições, algumas difíceis de aceitar e outras dolorosamente humanas.

Conheci suas cartas, suas amizades, seus fracassos, seus medos e sua relação quase visceral com Providence. Talvez por isso tenha conseguido escrever tão bem sobre pessoas que descobrem que o mundo não é exatamente aquilo que acreditavam.

Sua vida também parece ter sido assim, curta, inquieta e intensa.

Você morreu aos 46 anos sem imaginar completamente o tamanho da sombra que deixaria para trás. Talvez jamais acreditasse que, tantas décadas depois, existiriam pessoas reunidas ao redor de uma mesa apagando as luzes para contar histórias inspiradas naquilo que você criou.

E é justamente aqui que nossas histórias se encontram, porque hoje eu também sou Guardiã.

Algumas noites eu olho para uma mesa cheia de investigadores, cartas antigas, fotografias, jornais, mapas e pessoas tentando compreender aquilo que coloquei diante delas, e inevitavelmente penso em você.

Existe alguma coisa de Arkham quando descrevo uma rua vazia. Existe alguma coisa de Innsmouth quando faço meus jogadores desconfiarem do mar, e existe Dunwich quando uma casa parece esconder algo que jamais deveria ser encontrado.

Mas, principalmente, existe uma ideia que sua obra deixou profundamente em mim: o desconhecido não precisa aparecer para ser assustador, ele precisa ser sentido.

Foi isso que aprendi procurando compreender seus contos, e foi isso que passei a levar comigo cada vez que narro.

Talvez você nem gostasse de algumas das coisas que fizemos com suas histórias depois que partiu. Provavelmente discordaríamos de muita coisa, e talvez seja justamente por isso que gosto de imaginar que construímos uma amizade.

Sem perceber, você se tornou um daqueles autores que começaram ocupando espaço na minha estante e acabaram ocupando espaço na minha vida.

Hoje sou uma eterna pesquisadora da sua obra. Ainda encontro cartas que não conhecia, contos que mudam quando releio e detalhes da sua vida que fazem antigas palavras ganharem novos significados.

Quanto mais descubro, menos tenho a sensação de que terminei.

Existe algo quase irônico nisso. Passei anos narrando histórias sobre investigadores que enlouquecem tentando compreender coisas além da capacidade humana, e aqui estou eu, Howard, fazendo algo parecido com você.

Continuo lendo, procurando e ligando pequenos fragmentos, tentando compreender o homem que existiu por trás do mito. Mas eu não quero uma resposta definitiva, porque quero continuar investigando.

Enquanto houver algum conto para revisitar, alguma carta para descobrir ou alguma história sobre Providence esperando no escuro, ainda haverá alguma coisa para encontrar.

Eu procuro levar sua obra comigo por onde ando e, principalmente, por onde narro. Não como quem protege uma relíquia intocável, mas como quem mantém uma chama acesa.

Você escreveu sobre pessoas que olharam para o desconhecido. Eu escolhi conduzir outras até ele.

Talvez seja essa a maneira mais sincera que encontrei de agradecer.

Por isso, hoje, não escrevo apenas para Howard Phillips Lovecraft, o escritor. Escrevo para aquele homem estranho de Providence que, sem nunca saber meu nome, atravessou quase um século para sentar à minha mesa.

Sua obra ainda está aqui, ainda inquieta, ainda perturba, ainda inspira e ainda reúne pessoas.

E eu continuarei fazendo a minha parte, porque sou Guardiã da tua obra. Continuarei contando histórias, pesquisando e levando seus sussurros para outras mesas e outras noites.

Feliz aniversário, Howard, onde quer que você esteja.

E se realmente existir alguma coisa além desse véu, não precisa me contar.

Prefiro descobrir durante a investigação.

Com carinho, admiração e um pouco da insanidade que sua obra ajudou a despertar,

Thaís Vieira
Guardiã de Cthulhu


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Guardiã Thaís

Sobre o autor

Guardiã Thaís

Sou uma eterna narradora em formação, criando caos elegante em Call of Cthulhu. Minhas mesas misturam roleplay intenso, plot twist e aquele combate que só aparece quando a história pede. Trabalho com cenários autorais já testados em mesas presenciais e online. Se você curte imersão, vibe cinematográfica e surtos narrativos coletivos, vem atravessar o véu comigo.

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