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Tagmar foi o primeiro RPG brasileiro, publicado em 21 de dezembro de 1991 por Marcelo Rodrigues e seus sócios pela editora GSA. O sistema separou energia física de heroica, adotou magia por pontos e combate em tabela colorida, renascendo anos depois como projeto comunitário gratuito.
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Tagmar nasceu em 21 de Dezembro de 1991, e eu tive a oportunidade de conversar com quem estava lá, criando, escrevendo, editando e publicando. O autor e RPGista Marcelo Rodrigues topou sentar comigo e com o Henrique Müller para contar a história completa. A história de como um estudante de engenharia eletrônica do Rio de Janeiro decidiu, em 1988, que o Brasil precisava do seu próprio RPG. Se você joga RPG hoje, essa entrevista é meio que obrigatória para conhecer suas origens. Assista antes de continuar:
Tudo começou com uma cópia xerocada em 1985
Em 1985, um amigo apareceu com uma cópia do AD&D primeira edição, tudo em inglês, e ele conta que foi paixão à primeira vista. Na época, RPG no Brasil era coisa de outro planeta, palavras dele. Era (e ainda é) dificílimo de explicar para quem nunca tinha visto. Quem jogava era universitário, porque o material vinha do exterior na mala de alguém e o preço não era de adolescente. Eles jogaram assim por três anos seguidos.
Foi nesse acúmulo que apareceu o incômodo. Depois de três anos, ele olhava para o sistema e via furos. Aí virou para o Igor, o mestre do grupo, e fez a pergunta que muda tudo: por que a gente não faz um RPG?
O que o Tagmar resolveu que o D&D da época não resolvia?
Aqui mora a parte que me interessou como mestre. O Tagmar não é um sistema d20 com roupa brasileira. Ele se afastou dessa premissa desde o nascimento, para criar algo único.
A energia do personagem foi quebrada em duas, energia heróica e energia física, e isso resolveu uma pilha de problemas de uma vez. Magia funciona por pontos, não por slots diários. Habilidade usa nível de dificuldade conforme a situação. E o combate acontece naquela tabela colorida que muita gente olha e não entende para que serve: ela permite que uma única rolagem já diga se você errou, se acertou e quanto de dano saiu. Sem rolar de novo, sem somar na hora.
Quando perguntei como ele compara os dois sistemas, a resposta foi seca. iPhone e Android. Planetas diferentes.
Ele admite um erro, aliás, e eu achei essa honestidade ótima: o d10 da iniciativa não precisava existir. Deviam ter ficado só no d20.
A primeira tiragem acabou em seis meses (e a editora fechou mesmo assim)
1.000 exemplares produzidos na primeira tiragem, vendidos em seis meses. E a segunda tiragem, também esgotou. A terceira também financiou e com grande sucesso, porém...
Eles fundaram a GSA para publicar, com o sonho declarado de virar a TSR brasileira. O nome, ele conta rindo, foi inventado como sigla primeiro e significado depois. A parte boa é que ficava bom na capa.
E aí veio a parte que quase ninguém conta. A GSA fechou no fim dos anos 90, e não por falta de talento. Segundo ele, sabiam fazer RPG, até sabiam publicar, mas eram péssimos em vender. E o maior desafio: eram quatro sócios dividindo pouco dinheiro. Aí veio uma crise no mercado que gerou o encalhe de livros de RPG, um deles foi uma compra monumental (só assistindo para saber qual) e fez os livreiros brasileiros associarem RPG a prejuízo. Além disso, teve a chegada do Magic: The Gathering, que pegou uma grande atenção dos jovens (eu fui um deles). E por fim, houve um pânico moral do fim da década que coroou a desgraça. Na época quase todas as editoras fecharam junto.
Como a pirataria trouxe o Tagmar de volta
Essa é a minha parte favorita da conversa, e é por isso que eu te estimulo a assistir ao vídeo até o fim.
Em 2004, um sobrinho avisa o Marcelo que tinha gente distribuindo o Tagmar na internet sem autorização. Ele liga para o dono do site que era um garoto. Porém, Marcelo, em vez de ameaçar, ele propõe: tira do ar, que eu consigo a liberação com os outros três autores e a gente faz um negócio melhor. O garoto deve ter se assustado e sumiu.
Só que a ideia tinha pegado. Como ele já trabalhava com desenvolvimento de software, decidiu tocar o Tagmar como projeto de software livre: quebrar tudo em tarefas, delegar e integrar. Abriu um fórum e marcou a largada para 9 de setembro de 2004. Começou com 50 pessoas.
Um ano depois, o Tagmar 2 saiu com quase uma centena de colaboradores. Para você ter uma ideia, o capítulo de ambientação, que tinha 18 páginas e 15 reinos no original, virou livro inteiro. Hoje são mais de 30 livros publicados (e gratuitos no site). Tudo escrito por fãs do sistema, aprovado por votação da comunidade.
Em 2018 veio o Tagmar 3 com impressão sob demanda. Em 2022, ele descobriu o Clube dos Autores e fez algo que eu nunca tinha visto: configurou o próprio ganho em zero. Quem compra paga só o custo de impressão. Um livro de 350 páginas em quatro cores sai por volta de setenta reais. No fim do ano passado saiu a edição revisada do Tagmar 3, com as técnicas reescritas e um problema de combo eliminado.
Henrique perguntou se o Marcelo vive de RPG e a resposta foi simples: ele não vive disso e nunca viveu. E acrescentou com uma excelente resposta onde eu mesmo me vi: tem gente que gasta dinheiro com chuteira, camisa e aluguel de campo para jogar futebol no domingo. O hobby dele é fazer RPG.
Por que narrar Tagmar hoje vale o seu tempo de mestre
Se você é mestre e está procurando motivo, o Marcelo Rodrigues te dá três.
O sistema é rápido. Nos eventos, ele diz, as pessoas estão jogando em meia hora. A ficha em Excel calcula tudo, então você quase não faz conta durante a sessão. Além disso, tem aplicativo de Android, feito por um fã que mora em Brisbane, na Austrália, que gera a ficha e traz o mapa do mundo com zoom até o nível de cidade. Outro ponto é o suporte para Roll20, para Foundry e logo mais para WorldCraft.
O volume de material é absurdo para o custo. Seis aventuras prontas para rodar em campanha. O livro dos reinos tem 180 páginas. O de Terras Selvagens passa de 200. E são livros escritos para o mestre, descrevendo reino a reino, cidade a cidade, deixando gancho de aventura em cada canto.
E a ambientação tem alma própria e tem pitada de Tolkien, sim, mas o coração é mitologia grega reinterpretada. Existe Medusa no Tagmar, só que ela foi amaldiçoada por uma deusa de lá, não pela grega. Cada criatura ganhou origem dentro daquele mundo.
Setembro é o mês de tirar o RPG nacional da estante
É exatamente para isso que existe o Independência ou TPK. Durante Setembro, a gente coloca o holofote no RPG nacional aqui no MesaQuest, e a proposta é direta: experimente um jogo brasileiro que você ainda não jogou. Não tem prêmio, apenas mesa rodando para você experimentar.
Se você joga Tormenta 20 ou Ordem Paranormal toda semana, ótimo, continue. Mas abra espaço para uma one-shot de um sistema que você nunca abriu. Tagmar é um bom lugar para começar, porque o custo de entrada é o menor possível e o material é de nível profissional.
Assiste a entrevista, conhece o Tagmar e confere o Independência ou TPK. O Marcelo abriu essa porta em 1991. E a gente ainda está atravessando ela...
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